RESUMO
Os leitores silenciosos
MANGUEL, A. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 57-71
A leitura até o século I era feita em voz alta, pelos filósofos e pensadores da época, tanto sozinhos como em suas oratórias aos seus discípulos.
Para os pensadores dessa época, a leitura em voz alta dava às palavras mortas do papel o poder de voar, dar vida.
Era importante ouvir o som das palavras, pois ler era uma forma de pensar e falar.
O primeiro registro na literatura ocidental que documenta o exercício da leitura silenciosa foi feito por Santo Agostinho, em suas Confissões, no ano 383, onde ele se refere a Santo Ambrósio: “Quando ele lia, seus olhos perscrutavam a pagina e seu coração buscava sentido, mas sua voz ficava em silêncio e sua língua quieta” (p. 58). Antes desse registro, foram encontrados outros relatos, mas todos incertos.
Santo Agostinho também experimentou essa leitura silenciosa e relatou-a em suas Confissões, por volta de 386, quando ele e seu amigo Alípio leram as Epistolas de Paulo como nós a leríamos hoje: em silêncio, para o aprendizado privado, e em voz alta, para compartilhar com sua companhia a revelação do texto.
A leitura silenciosa só se tornou prática usual no Ocidente no século X.
A leitura em voz alta se explica pela tecnologia de escrita empregada naqueles tempos. A escrita antigamente era muito complexa, pois não havia a separação das palavras, nem a diferença entre letras maiúsculas e minúsculas; e nem pontuação, como a temos hoje. Não havia sentido de direção, pois era feita em rolos. Para compreender o texto o leitor tinha que lê-lo em voz alta, para evitar os erros de interpretação atribuir sentido às palavras grafadas sem segmentação ou qualquer sinal gráfico que facilitasse sua discriminação visual rápida. Cabia ao ouvinte “desembaralhar o que ao olho parecia uma linha contínua de signos” (p.64).
As línguas primordiais da Bíblia (aramaico e hebreu) não faziam diferença entre o ato de ler e de falar, dando a ambos o mesmo nome.
Quando os monges copistas começaram a tradução das escrituras Sagradas e a organização desses textos em paginas, capítulos e a criar um sistema de pontuação, foi que se começou a utilizar a leitura silenciosa como norma dentro dos scriptorium (lugar onde os monges escreviam), pois os monges deveriam ter uma leitura mais concentrada e com reflexão para que a tradução e também a cópia saísse perfeita.
A leitura silenciosa também podia representar muitos perigos, pois a Igreja na época, não podia imaginar a leitura silenciosa de suas escrituras. Muitos pensadores da época fizeram suas próprias interpretações acerca dessas escrituras e assim levantaram hipóteses contrárias ao que a Igreja pregava. Entre eles, Martinho Lutero, que no ano 1517 proclamou as 95 teses contra a prática das indulgências e outros abusos eclesiásticos.
Certamente Santo Agostinho no ano de 383, não imaginava que o que ele observou em Santo Ambrósio se tornaria uma prática tão usual nos séculos seguintes, com uma multidão de leitores silenciosos onde quer que olhemos.
a Leitura ouvida
MANGUEL, A. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 131-147
A leitura se tornou privilégios de poucos, pois sendo a igreja a detentora do saber, esse privilegio só chegava a quem podia pagar por ele.
Na Idade Media era comum a pratica de ouvir alguém ler, pois a alfabetização era rara e os livros, propriedade dos ricos.
Nas cortes, e às vezes também em casas mais humildes, os livros eram lidos em voz alta, tanto com finalidade de instrução quanto de entretenimento.
Por volta do ano 529, quando São Bento fundou o seu mosteiro, uma das regras era a leitura em voz alta, por um dos monges, durante as refeições.
A partir do século XI, em toda a Europa joglars intinerantes recitavam ou cantavam versos deles mesmos ou de autoria dos mestres trovadores, armazenados em suas prodigiosas memórias.
No século XV os Évangiles des Querovilles (Evangelhos das rocas), mostra quão fluidos podiam ser essas leituras informais, pois registra situações em que as mulheres da época, observando o que os homens escreviam sobre elas nos pasquins, começam a se reunir para comentarem essas leituras e dar a sua visão feminina.
No século XVII era muito comum ver pessoas reunidas em estalagens à beira das estradas para ouvir alguém lendo para eles.
No começo do século XIX, quando a imagem de uma mulher culta ainda era desaprovada na Inglaterra, ouvir leituras tornou-se uma das maneiras aceitas para as mulheres estudarem.
Com o passar do tempo começaram a surgir jornais de movimentos sindicais, que divulgavam notícias sobre a modo desumano como operários eram tratados nas fabricas de charutos. Mas essas políticas não chegavam aos trabalhadores, pois esses, na grande maioria eram analfabetos.
Em 1865, Saturnino Martínez, charuteiro e poeta de Cuba, publica o jornal La Aurora, voltado aos trabalhadores, publicando alem de política, ciência e literatura, poemas e contos.
Mas ele logo percebeu que o analfabetismo impedia que suas publicações chegassem a quem ele realmente quer atingir. Então ele teve a idéia de pôr leitores dentro das fábricas e, assim, com a ajuda de diretores de fabricas foi implantado um lector oficial que tinha a tarefa de ler para os trabalhadores enquanto esses trabalhavam.
Além de notícias, essas leituras também versavam sobre a literatura da época. Em pouco tempo isso se tornou conhecido e o governo a considerou a atividade “subversiva” e a proibiu através de um decreto em 1866. As leituras mesmo assim continuaram acontecendo de forma clandestina, mas por volta de 1870 ela desapareceu por completo.
Mas ela não foi esquecida, e ressurgiu em solo americano, levado pelos próprios operários depois da guerra dos Dez Anos da Independência de Cuba.
Ouvir alguém lendo para eles, descobriram os charuteiros, permitia-lhes revestir a atividade de enrolar as folhas escuras do tabaco – atividade mecânica e entorpecedora da mente – com aventuras a seguir, idéias a levar em consideração, reflexões das quais se apropriar (p. 136).
Com o passar dos tempos a leitura em voz alta para ouvintes tornou-se habitual, pois ouvir alguém ler permite ao ouvinte uma escuta intima das reações que normalmente devem passar despercebidas.
Ler em voz alta não é um ato privado, é a leitura feita para compartilhar o texto. A escolha do material de leitura deve ser socialmente aceitável tanto para o leitor como para o publico.
Perguntas:
1 – O que se pode aprender com a leitura ouvida?
com a leitura ouvida aprendemos a ter atençaõ com que esta sendo lido, podemos experimentar diversas sensações principalmente quando não sabemos o que vem depois. fica na expectativa